Portugal
Bairrada
Vinho Branco Seco
Campolargo
Bical
2005
16% vol.

O restaurante PipaRoza, em Évora, é uma caixa de surpresas no que a vinhos diz respeito. Sendo cliente habitual, os empregados já sabem que gosto de experimentar coisas novas, pelo que me desafiam sempre que abrem algo interessante (o que acontece com alguma frequência, uma vez que no PipaRoza todos os vinhos são vendidos a copo: do EA ao Pêra-Manca!). Num dos habituais jantares de quarta-feira, onde normalmente janto sozinho na barra ou, com sorte, na companhia do Pedro Carvalho (o patrão), o Fábio Empregado disse-me:
“Hoje temos uma coisa especial…”
“O que é?”
“Um vinho feito com uvas secas à sombra.”
“Um Passito? Boa!… Tinto?”
“Branco.”
“Hmmm, OK… Doce?”
“É seco.”
“?!?… Vin de Paille branco e seco? Interessante… É donde?”
“É da Bairrada e é feito com Bical.”
“Raios, homem! Serve lá o vinho que já me puseste inquieto!”
Não foi exactamente assim que se passou, mas poderia ter sido. A conversa já diz muito sobre o vinho, e é difícil saber mais: a pesquisa na internet rendeu pouco e o site do produtor nada refere, talvez porque a produção seja muito pequena, imagino…

Sendo feito com uvas desidratadas, o que causa uma grande concentração de açúcares, esperar-se-ia que fosse doce, mas com perfil seco e 16% de álcool, presumo que lhe tenha sido permitido fermentar antes de ser engarrafado – assim como nos Amarone della Valpolicella italianos?

Vamos à prova: a cor é palha dourado, com uns toques de topázio. Tem um aroma de levedura, vegetal, a fazer lembrar alguns Palomino Fino de Jerez, mas na boca é muito diferente: fruta de polpa laranja (alperce, manga) a aparecer neste, quando nesses está normalmente ausente. Notas de pastelaria (brioche), que no nariz são apenas uma nuance, confirmam-se declaradamente na boca. Também no nariz apresenta aromas de marmelada que encaixam de forma muito curiosa no perfil seco do palato. Tem grande complexidade, para a qual contribui a presença de baunilha e outras especiarias. Belíssima acidez fresca que confere grande tensão e vivacidade ao enquadramento mais untuoso do vinho. O final é muito intenso e prolongado.

Dado o seu perfil seco e fresco, perfila-se, tal como indicado no rótulo, como aperitivo, por exemplo com umas amêndoas torradas, mas também o veria à mesa a acompanhar umas vieiras salteadas com foie gras, ou mesmo no fim da refeição a bater-se com um queijo curado ou de meia cura.

Quem nunca o provou, prepare-se para uma coisa diferente, como nunca provou antes proveniente de vinhas portuguesas (e poucos outros sítios no Mundo farão coisas semelhantes!).

Enfim, uma relíquia… Venham mais destas, Dr. Campolargo!

Preço: N/D

G. P. (MAR-2019)

  • 17.5 Valores