Poço do Lobo Arinto 1994

Fev 22, 2020 | Reliquia, Vinho

Portugal
Beiras
Vinho Branco
Caves São João
Arinto
1994
11.5% vol.

Correndo o boato que o gigante Sogrape acabava de comprar as Caves de São João, senti um friozinho na espinha… durante anos e anos estive para me abastecer faustosamente nas CSJ, mas fui sempre deixando para trás: “os vinhos estão tão bem guardados lá, assim que possa compro-os”, dizia para mim. “E agora? O que vai acontecer aos preços? Seguramente vão subir em flecha!…”. Nunca investi 1€ sequer em acções, mas por momentos senti-me, imagino, como se sentiria um corrector da bolsa que acaba de perder uma oportunidade única e óbvia que não conseguiu agarrar em tempo útil. Seria sumariamente despedido pelo seu patrão, de certeza. Felizmente, eu tenho a sorte de não poder despedir-me a mim próprio!
Pensei que provavelmente já não teria a oportunidade comprar directamente nas Caves e fui à procura do que havia à mão no mercado: encomendei (“a ver se ainda se arranja!”) Frei João Tinto de 66, comprei Porta de Cavaleiros branco de 84, e também este Arinto de 94:

O nível estava pela base do pescoço. A rolha mostrava idade mas cumpriu a sua função até ao fim, sem atrapalhar na hora da despedida, com a ajuda do Durand. A cor é um lindo palha dourado, cristalino… E agora começa a parte complicada de colocar em palavras todo o rol de sensações que este vinho desperta e vai despertando enquanto nos faz companhia. Aqui vai uma tentativa… O nariz, que não esconde um toque de agradável oxidação, é dominado pelo perfil cítrico – não o cítrico fresco, o de casca de limão velho, por exemplo – mas há uma grande complexidade, que vai a mel e cera de abelhas e até manga madura! No início há um toque químico de borracha, que muito rapidamente desaparece, pelo que a decantação não me parece fundamental. Para que toda a panóplia de sensações se manifeste, o vinho não deve ser servido demasiado frio, diria aproximadamente 12-14 graus.

O palato é incrivelmente jovem e desmente peremptoriamente qualquer nota de evolução (oxidação) que o nariz possa ter transmitido: continua-se consistentemente com uma acidez citrina, vibrante, que dá vida ao vinho. O ataque inicial, intensamente mineral, é inquietante pela sua potência e desperta os sentidos para o que quer que seja a companhia à mesa. Termina muito seco, com persistência média. Ou seja, estamos a falar de um vinho que, apesar de se poder beber sozinho pela sua grande complexidade, é eminentemente um vinho gastronómico. E multifacetado: esta garrafa acompanhou tão magnificamente o bacalhau assado no forno com pimentos do almoço como o queijo de meia cura ao lanche! O facto de ter apenas 11,5% de álcool faz com que seja muito leve e que disponha bem até se ver o fundo da garrafa.

Não me posso queixar da quantidade de vezes que eu e uma garrafa deste Arinto de 94 nos cruzámos (bem como os de 91, 92 e 95), já foram várias. O que me permitiu perceber que existe uma variação apreciável de garrafa para garrafa, compreensível em vinhos com mais de 20 anos e que, honestamente, não sei se seria deles esperado que pudessem ser bebidos com esta idade na altura em que foram produzidos. Esta garrafa, em particular, estava num nível bastante bom. Provei outras que pudessem estar ligeiramente melhores, mas não muito. Outras estavam um pouco mais cansadas.

Por último, em relação à Sogrape e aos preços: uma rápida pesquisa na internet não confirma a notícia da venda das CSJ. Não sei, portanto, se se trata realmente de um boato apenas, ou se, inadvertidamente, tive acesso a “inside information” que vai sair, mas ainda não se tornou pública. No que respeita a uma eventual subida de preços, não devemos “diabolizar” a Sogrape de forma precipitada – como eu fiz, confesso, num primeiro impulso. Com efeito, as próprias CSJ encarregaram-se elas próprias de aumentar muito significativamente os preços, como tive oportunidade de confirmar quando consultei uma tabela actualizada. Em alguns casos os preços mais que duplicaram nos últimos anos mas, convenhamos, este aumento corresponde apenas ao acerto que, pela qualidade que apresentam e pelo investimento em tempo, espaço e risco feito pelo produtor, estes vinhos indubitavelmente merecem.

Se ainda não o fizeram, visitem as Caves (vale a pena!) e provavelmente concordarão comigo.
Aguardemos tranquilamente, enfim, os próximos desenvolvimentos.

Preço: N/D

G. P. (FEV-2020)

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