Porto Extravaganza 2018 (5ª Edição) – Parte 3

Porto Extravaganza 2018 (5ª Edição) – Parte 3

Sintra, 11 de Março de 2018

…e, ao terceiro dia de um fim-de-semana deveras extravagante, repleto de inebriantes extravagâncias, chegam, para nos inebriar uma vez mais, os Vinhos do Porto ao Porto Extravaganza!

Nunca antes tinha sido efectuada pela Ramos Pinto, empresa clássica de vinhos do Douro DOC e do Porto, uma prova desta forma para não profissionais. Foi feita agora no Porto Extravaganza por consideração ao Paulo Cruz, mentor e principal força motriz do projecto.

A Ramos Pinto foi fundada por Adriano Ramos Pinto em 1880 e, em 1990, adquirida pelo grupo francês Roederer, mais conhecido pelo famoso Champagne. Apesar disto, a Ramos Pinto mantém uma gestão independente, que continua a cargo da família (o próprio grupo Roederer tem também gestão familiar). Para além deste carácter familiar, há outros dois pilares que caracterizam a linha de acção na Ramos Pinto: 1) o facto de todas as uvas utilizadas nos vinhos serem de produção própria (provenientes de 4 quintas, a saber: a Quinta do Bom Retiro e a Quinta da Urtiga, no Cima Corgo, no coração da região; e a Quinta dos Bons Ares e Quinta de Ervamoira no Douro Superior) e 2) o facto de a empresa ter impregnado no seu DNA o pioneirismo, com uma procura constante para estar sempre na liderança dos avanços mais relevantes na área: a ela se deve a identificação das 5 castas recomendadas para Vinho do Porto (Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão), que ainda hoje se mantêm; o primeiro Late Bottled Vintage; ou a implementação da vinha ao alto, que obvia a necessidade de criação de patamares, e que permite a mecanização da vinha, só para enumerar alguns dos avanços que mais impacto tiveram na progressão da região.

A prova foi conduzida por Ana Rosas, Master Blender da Ramos Pinto, e foi organizada de forma interessante. Tivemos 4 duetos: 1. Vintages jovens (Clássico vs Vintage de Quinta); 2. Vintages maduros (Vintage clássicos com 36 e 66 anos de idade); 3. Vintage vs Colheita (ambos os vinhos de 1924!) e, por fim, 4. Brancos do século XIX (um doce e um seco). Pelo meio, estrategicamente, tivemos uma masterclass sobre a arte do blending.

// DUETO 2015-2014
Nome: Ramos Pinto Vintage
Cor: Rubi
Ano: 2015
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 2017
Castas: N/D
Teor Alcoólico: 19,5
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: 55€
Classificação: 17,5

Vintage clássico, feito com 60% de uvas provenientes da Ervamoira e 40% do Bom Retiro.

A cor é granada escura profunda, com intensos laivos violetas. No nariz é muito rico, com violetas e fruta de bosque madura. Na boca, é seco e ácido, com taninos vivos e cheios de grão e com algumas notas minerais a dar-lhe elegância.

Dá muito prazer a beber já, mas eu preferiria guardá-lo…

Nome: Quinta do Bom Retiro Vintage
Cor: Rubi
Ano: 2014
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 2016
Castas: N/D
Teor Alcoólico: 19,5%
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: 60€
Classificação: 16,5

A cor é também rubi, claro, mas de uma intensidade e profundidade ainda superiores ao de 2015. No nariz, predominam novamente as notas de fruta de bosque madura e florais, como violetas e lavanda, com apontamentos balsâmicos a conferir elegância e de alcatrão a dar-lhe austeridade. O aroma continua-se de forma quase científica no palato. Para além das notas de fruta do bosque que se esperavam, temos também alguma ameixa preta. Os balsâmicos também estão por lá. O conjunto resulta um pouco desequilibrado, talvez porque a aguardente ainda esteja a mostrar-se demasiado no nariz e na boca. Os taninos, embora tenham sido descritos como sedosos, a mim pareceram verdes e zangados. Pelo facto, parece-me um vinho com grande potencial e, ao contrário do 2015 que consideraria beber já, este guardá-lo-ia para comemorar o nascimento dos meus netos, ou até talvez dos filhos deles (se tiver a sorte de ainda cá andar…).

CONCLUSÃO: Foi um dueto interessante, que deu para comprovar o perfil mais “redondo”, “pronto” e amigável dos Vintage clássicos de lote, por oposição ao estilo mais personalizado e impositivo dos Vintage de Quinta. Posso estar enganado, mas desconfio que já sei onde os Vintage antigos da Ramos Pinto vão buscar os taninos sempre bem vivos (mas mais domados pelo tempo, claro) que estou habituado a encontrar nesta casa. Será nas uvas da Quinta do Bom Retiro?

// DUETO 1982 – 1952
Nome: Ramos Pinto Vintage
Cor: Rubi
Ano: 1982
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 1984
Castas: N/D
Teor Alcoólico: 20%
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: 95€
Classificação: 18

Segundo Ana Rosas, este terá sido o primeiro Vintage da Ramos Pinto em que o enólogo foi 100% responsável pela composição do lote, que é na sua maioria feito com Tinta Barroca.

A cor impressiona pela intensidade (aparentemente a cor profunda é típica desta colheita), para um vinho com mais de 30 anos de idade. É uma espécie de rubi, mas tem uma tonalidade única, difícil de descrever. No nariz chamam a atenção as notas quase pungentes de café, com um toque de chocolate e especiarias, para além das notas primárias da fruta (que ainda se faz sentir, e bem), e violetas. Depois, aparecem os balsâmicos. Na boca ainda mostra bem a fruta, com ameixa preta, que evolui para frutos secos no final. Bem enquadrado num perfil mineral e por taninos bem domados, mas que não se escondem, num final longo, guloso e de grande equilíbrio.

Nome: Ramos Pinto Vintage
Cor: Rubi
Ano: 1952
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 1954
Castas: N/D
Teor Alcoólico: ~20%
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: 980€
Classificação: 18,5

Se a cor do Vintage 1982 me impressionou, a deste Vintage jamais esquecerei. Porque enquanto a do 1982, por diferente que seja, se mantém dentro dos parâmetros “normais”, a deste vinho cai completamente fora do baralho. Vejamos: se eu tivesse que descrever a cor deste Vintage 1952 diria que é um rosa velho sujo, com laivos de salmão (!!!) – vide foto. No nariz domina o rebuçado, com notas mais balsâmicas de madeira de cedro e, por fim, nuances químicas a petróleo e alcatrão. Na boca é espesso e intenso, com os balsâmicos novamente a mostrarem-se na dose certa para não perturbar o extraordinário equilíbrio que o vinho apresenta. Deveras elegante e delicado (feminino no perfil, até), apresenta um final muito longo e especiado, bem enquadrado, mais uma vez, por taninos muito bem educados. Está num momento de consumo muito nobre, embora talvez ainda tenha vida suficiente para viver pelo menos mais uma década sem que as rugas ou cabelos brancos chamem demasiado a atenção.

CONCLUSÃO: Foi muito interessante este dueto, uma vez que colocou em destaque a diferença entre um Vintage maduro (o 1982), e um Vintage verdadeiramente velho, com mais de 60 anos de idade. Talvez, após esta prova, eu vá rearranjar a forma como catalogo os Porto Vintage na minha cabeça. Até aqui pensava em 3 categorias gerais, por ordem crescente de antiguidade: Vintage novo, Vintage em “fase parva” e Vintage envelhecido. Agora, divido esta última categoria em dois, porque o maduro e o verdadeiramente velho (com mais de 50 anos, diria) são animais suficientemente diferentes para que se faça uma distinção.

MYOB – MAKE YOUR OWN BLEND

Estrategicamente, antes de passarmos para os vinhos verdadeiramente muito velhos, fizemos uma pausa. Na forma de uma masterclass para testar os nossos pergaminhos na arte de fazer um blend.

Foi servido um cálice de tawny Ramos Pinto 20 Anos da Quinta do Bom Retiro, um dos meus 20 Anos preferidos de todos os que provei até hoje. O objectivo deste exercício era, em cima de um blend de 20 anos base previamente preparado (já muito equilibrado, boa estrutura, com notas interessantes de caixa de fósforo no nariz e frutos secos na boca, com massapão no longo final), recriar esse produto acabado através da adição de “bonificateurs” ao vinho base. Para tal, todos os participantes foram presenteados com um catita “estojo de Master Blender”. No seu interior, que mais parecia um mini laboratório de química que me fez reviver os meus tempos de liceu (com pipetas, provetas e até um balão de Erlenmeyer), estava uma garrafa de Quinta do Bom Retiro 20 anos base, à qual nós teríamos que adicionar, então, o sal e a pimenta (tínhamos à disposição amostras de blends de maior idade, como o 30 e 40 anos, bem como pequenos frascos de Colheitas muito antigas como 1924 e 1909!!!).

Quando finalmente foi divulgada a “solução” para o “problema” (não vou divulgar porque não estou seguro que o deva fazer, não pedi autorização), ainda eu ia a meio do caminho. Mas o pouco tempo que tivemos até lá foi tempo suficiente para perceber que já me tinha espalhado completamente ao comprido e que teria que abandonar todas as minhas aspirações a um dia vir a ser um Master Blender conceituado. Enfim…

CONCLUSÃO: Foi um exercício muito interessante, em que o que mais me impressionou foi como a adição de até uma pequena pipeta de um vinho do Porto velho pode mudar completamente o carácter do vinho base. Com efeito, o sal e pimenta no Quinta do Bom Retiro 20 Anos representa apenas 3% do lote final, e o impacto destes 3% é impressionante!

// DUETO VINTAGE vs COLHEITA
Nome: Ramos Pinto Colheita
Cor: Tawny
Ano: 1924
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: N/D
Castas: N/D
Teor Alcoólico: N/D
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: N/D
Classificação: 19

O vinho parece espesso no copo, cor profunda de café turvo, com laivos esverdeados que pintam as paredes do copo quando é agitado. No nariz, intensos terciários a resina, verniz. O vinagrinho é também muito intenso. No palato é muito doce, resultado de décadas de concentração, mas esta doçura é perfeitamente equilibrada pela incrível acidez que o vinho apresenta. Dominam o melaço e figo seco, mas com notas minerais (que foram uma constante ao longo da prova, quase como uma imagem de marca, mesmo neste vinho tão concentrado) e brioche num final muito, muito longo e guloso. Para minha alegria, parece ainda haver um stock apreciável deste vinho a envelhecer em cascos nas caves da Ramos Pinto. Pode ser que ainda me volte a cruzar com ele…

Nome: Ramos Pinto Vintage
Cor: Rubi
Ano: 1924
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 1926
Castas: N/D
Teor Alcoólico: 20%
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: ~1300€
Classificação: 18,5

É impressionante que, segundo a informação que nos foi disponibilizada este é exactamente o mesmo lote que constitui o Colheita. E os vinhos são tão diferentes! A cor é muito menos concentrada, sendo o Vintage mais cor de tijolo, acobreado, com uns discretos laivos rosados ainda. O nariz é fantástico, super complexo, onde dominam as notas de cedro. Na boca é muito equilibrado, fresco e elegante. O final é guloso, longo e bem enquadrado pelos omnipresentes taninos, com um vigor impressionante para um vinho desta idade!

CONCLUSÃO: Um dueto muito interessante, um dos momentos altos da prova. Principalmente por ser exactamente o mesmo vinho, tratado de duas maneiras radicalmente diferentes, e que permitiu perceber qual o impacto que têm quase 100 anos de evolução sob cada uma destas filosofias! Extraordinário… A Quinta do Bom Retiro foi adquirida em 1919 e 1924 foi a primeira colheita de grande qualidade na Quinta, o que levou à decisão de engarrafar parte da colheita como Vintage. Foi um ano de declaração generalizada, provavelmente devido a um Verão excepcionalmente frio e uma vindima que decorreu em boas condições, o que pode ajudar a justificar a frescura, elegância e acidez elevada que ambos os vinhos apresentam. Contudo o cariz que os ambientes oxidativo (Colheita) ou redutor (Vintage) imprimem ao vinho são tão dramaticamente diferentes que comparar um vinho com o outro é, parece-me, um exercício de futilidade. É como comparar vinho tinto com vinho branco. Neste caso, o meu preferido foi o Colheita (seria o tinto?), talvez porque impacta de forma mais pronunciada os sentidos, o que o favorece em contexto de prova. Mas às vezes apetece-me mais beber vinho branco! Em suma, devemos saber o que procurar em cada um dos vinhos e apreciar de acordo, não devemos provar um Vintage velho à espera que ele ofereça aquilo que um Colheita oferece! E vice-versa…

// DUETO BRANCOS DO SÉCULO XIX
Nome: Ramos Pinto Porto Branco
Cor: Branco
Ano: 1884
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: 1926
Castas: N/D
Teor Alcoólico: N/D
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: Indisponível
Classificação: 19,5

Tenho ultimamente sido verdadeiramente surpreendido por estes Portos Brancos velhos. E este não fugiu ao tema… 1884 terá sido um ano de qualidade excepcional. Este vinho envelheceu em cascos de carvalho até 1926, altura em que foi engarrafado por ter sido selecionado pelo próprio Adriano Ramos Pinto para consumo próprio, dada a sua qualidade extraordinária! Âmbar na cor. No nariz dominam novamente os terciários de cola, verniz, resina mas também com um toque de vinagrinho. É um vinho austero, contido no impacto inicial, mas que ao longo da prova de boca evolui num crescendo imparável, mostrando uma vivacidade, uma tensão e irrequietude que são verdadeiramente inacreditáveis para um vinho com mais de 130 anos de idade! Final equilibrado, longo e especiado. O vinho que mais me impressionou em toda a prova. Até parece que Adriano Ramos Pinto sabia o que estava a fazer…

Nome: Ramos Pinto Porto Branco Seco
Cor: Branco
Ano: 1890
Tipo: Fortificado – Porto
Ano de engarrafamento: N/D
Castas: N/D
Teor Alcoólico: N/D
Produtor: Ramos Pinto
Região: Douro
País: Portugal
Preço: Indisponível
Classificação: 16,5

Este Porto Branco seco foi produzido para servir como “tempero”, para equilibrar a doçura de outros vinhos. Contudo, apesar de seco, não parece sê-lo mais do que o provado anteriormente. No impacto inicial o aroma é fechado, estranho, não propriamente agradável. Pensei que melhorasse com mais tempo no copo, mas manteve sempre um perfil algo desconcertante. No palato tem coisas que faz lembrar um Fino de Xerez, mas mais complexo, claro, e também obviamente mais fortificado. Tem também umas notas de mel e anisadas (rebuçados Dr. Bayard, alguém se lembra?) que talvez contribuam para alguma sensação de doce, a combater a de secura. Tem também alguns apontamentos engraçados de biscoito de manteiga e baunilha. Tentei durante a prova que chegássemos a bons termos, eu e o vinho. Mas não consegui…

EPÍLOGO

E chegamos, assim, ao fim de mais um extraordinário Porto Extravaganza. Uma palavra de apreço ao Paulo Cruz pela excelente organização e por ter sido um grande anfitrião deste evento incrível, que vai já na quinta edição. Pela amostra que tive, fico com uma pena enorme (até dói!) de não ter estado presente nas edições prévias. Mas, “águas passadas não movem moinhos”… Venham é muitos mais PORTO EXTRAVAGANZA! Até para o ano…

GP, para W4P

Março de 2018