Visita à Quinta da Pellada – Parte 2
Entrevista com Álvaro de Castro
1. (w4p) Esperava quando pegou na quinta (há quase 40 anos atrás) chegar onde chegou, atingir a notoriedade que atingiu?
(AC) – Nunca foi um objectivo a curto prazo… A notoriedade não era o meu objectivo. É óbvio que é necessária: se não formos conhecidos, não vamos a lado nenhum… Eu diria que a notoriedade é um mal necessário.
2. (w4p) Quinta de Saes 1989 foi o primeiro vinho. Conte-nos um pouco a história deste vinho: De que vinhas? Que particularidades? Como foi a crítica? Como foram as vendas?…
(AC) – As uvas vieram da vinha velha da Quinta da Pellada, embora também um pouco das uvas de Saes (aliás, havia uma vinha velha em Saes, que eu tenho pena que tenha desaparecido). O ano foi muito fresco. O sucesso que o vinho teve não foi muito grande, porque era um vinho que não era aquilo que se procurava na altura… Embora fosse uma coisa muito tradicional… Acho que se fosse hoje, o vinho teria feito muito mais sucesso. Ainda me lembro bem dele: era um vinho simples, apetecível, que dava prazer beber.
3. (w4p) 3 anos depois surge o primeiro Quinta da Pellada. Sentiu a necessidade de fazer a distinção entre 2 patamares?
(AC) – Esse vinho foi feito com uvas apenas provenientes da vinha velha da Pellada, da porção que hoje chamo Pellada Casa. Tenho muito boas recordações dele. Era um vinho equilibrado, mas era um vinho com mais pretensões sim…
4. (w4p) Como conheceu o Dirk Niepoort? Quem teve a ideia de fazer a parceria do DADO?
(AC) – Eu conheci-o porque ele me telefonou. Eu já o conhecia, enfim, digamos da parte social… Mas não o conhecia pessoalmente… Ele telefonou-me, e a ideia foi dele… Na altura, diziam que eu e ele tinhamos “os melhores aromas de Portugal”… Ele propôs-me fazermos um vinho e eu disse logo que sim. O Dado tinha uma ideia por detrás, que era a ideia do pai dele: que o melhor vinho de Portugal era a conjugação da força do Douro com a elegância do Dão. Havia algumas réplicas desta situação na altura… Acho que havia um vinho da Real Companhia Velha, e outros… A razão dessa ideia do pai do Dirk, provavelmente vem disso.
5. (w4p) O Carrocel surgiu em 2003. Já sabemos que não sabe porque é que a partir daquela vinha consegue o seu “melhor vinho”. Mas a pergunta é: Porque cargas de água é que o vinho tem esse nome?
(AC) – Isso tem a ver com a vinificação, e, curiosamente, mais uma vez, com as minhas conversas com o Dirk. Um dia, íamos para Nápoles, e eu levei uma garrafa de Carrocel 2003 (que ainda não tinha nome), e ele gostou imenso daquilo. E perguntou-me: mas como é que tu fazes isto? E eu disse-lhe: É pá, isto é uma tourada! Eu tenho dois lagares, eu puxei pelas vinhas… Na altura eu fazia esse tipo de vinificação, que já não faço hoje… A ideia não era fazer um vinho mais intenso, mas sim perceber o que valia aquela Touriga Nacional. E então, fazia um tipo de vinificação em que poderia ter a ver alguma coisa com o Ripasso, mas eu não aumentava o grau alcoólico, e eu andava com o sumo das uvas de um lagar para o outro… E ele disse: É pá, isso é um grande carrocel! E eu disse: olha pá, grande nome! E decidimos que ficava esse nome. Inicialmente a marca Carrocel até estava registada pela Niepoort. Mas o vinho era meu, e depois a marca ficou para mim.
6. (w4p) Porque o Carrocel só surge em 2003? E porque o Primus só aparece em 2006?
(AC) – Grande pergunta! Sei lá!… O Carrocel só surgiu em 2003 porque calhou assim. Estas coisas não vêm todas de uma vez. Estávamos na fase em que a Touriga Nacional começou a ter um sucesso muito grande. E as minhas experiências com a Touriga Nacional eram feitas sob o rótulo de Quinta da Pellada. E eu, se tenho alguma característica, é que não vou muito no que está na moda, e não acredito nas coisas só porque se diz que tal coisa é assim. Quis perceber eu próprio se aquilo era diferente. Naquela altura, eu não estava tão virado para a questão do terroir, e sim mais virado para a casta em si… Mas vim a perceber mais tarde que estava errado. E quando isso começou a ser muito notório, foi numas provas promovidas pelo Virgilio Loureiro (que até era apaixonado pelo Dão). Ele até puxava mais pela região do que pelo local específico. Mas foi com ele que comecei a perceber a importância do terreno e tudo o que constitui o tal terroir. E de facto, comecei a convencer-me que aquela parcela era melhor… E era!
O Primus 2006: Eu já fazia aquele vinho branco desde sempre. Era um Quinta de Saes. Aliás, talvez o melhor vinho branco que fiz tenha sido um Quinta de Saes 1994, ou coisa que o valha. Até teve muito sucesso fora de Portugal. Vendi muito esse vinho para a Suécia. Uma quantidade enorme… era um vinho precioso e era dessa vinha. Era um Saes reserva que era muito muito bom. Com o Primus começamos a fazer as primeiras tentativas do uso da madeira. E de usar um tipo de vinificação um pouco mais à francesa. E era a primeira vez que faziamos aquele tipo de vinificação. Daí o nome, que entrou tão bem que acabou por ficar. Se bem que mesmo à francesa, à francesa, foi mais este último ano, este Quinta de Saes Encruzado Reserva Late Release 2015.
7. (w4p) Única pergunta de números: Quantos hectares? Quantas garrafas/ano? Percentagem de branco/tinto/rosé? Percentagem de exportação? Principais mercados?
(AC) – 65 hectares. O número de garrafas depende: 200-300 mil. 80% tinto, 15% branco e 5% rosé. Embora o rosé tenha crescido nos últimos tempos, e o branco também um pouco. O branco é a única coisa que eu faço que não é exclusivamente das nossas vinhas. Também vêm algumas uvas do meu primo, de uma vinha de Vendas de Galizes. A exportação é variável, mas é mais de 50%, pelo menos em valor. Não podemos dizer que existam principais mercados. O norte da europa é importante: mais a Noruega que a Suécia, Bélgica, Holanda, Alemanha, Suiça… Tem sido… Isto nunca está nada feito para toda a vida… Vai variando… Para a Bélgica tem sido mais constante, porque temos um cliente que é um amante do Dão e da Pellada em particular.
8. (w4p) Em 2010, após vários anos de ausência, reavivou-se a tradição da Pellada nos varietais: Jaen, Alfrocheiro, Alvarelhão… É para continuar?
(AC) – Eventualmente. Acho que sim. Não de uma maneira regular, mas se eu achar que o vinho tem interesse em ser lançado “sozinho” vou continuar a fazê-lo.
9. (w4p) Actualmente, para além das 2 marcas standard, Saes e Pellada, existe uma 3ª marca: Quinta de Pinhanços… e depois existem uma série de outros rótulos/marcas: Muleta, Dente de Ouro, Barragem, Pellada Casa/Alto/49, Saes Caniças… Não teme que haja alguma dispersão enológica????
(AC) – Não. Dispersão enológica não temo de certeza. Porque a enologia está dentro da minha vontade, e isso não vai acontecer. O que isso pode acarretar é alguma confusão para o consumidor: Não para o consumidor interessado, que vai estando atento, mas para o outro. E, ao fim ao cabo, eu sempre fui conhecido por isso, e acho que já vou morrer assim.
10. (w4p) Ouvimos dizer que vai abandonar o Carrocel Dourado. Porquê?
(AC) – Se o Carrocel Dourado continuar, vai ser eventual, e naquela linha dos vinhos de castas sozinhas. Podem vir a acontecer mais edições, mas nunca de uma forma regular.
11. (w4p) Com quem é que gostaria de fazer um vinho?
(AC) – Essa é a mais difícil de todas!… Não me apetece isso! Eu gostei da experiência com o Dirk, e, eventualmente, iremos continuar a fazer. Mas, depois, isso passou a ser uma moda, e não tenho interesse nisso.
12. (w4p) O Futuro? Já fez o seu melhor vinho de sempre? O que é que quer continuar a fazer?
(AC) – Não. Acho que o meu melhor vinho de sempre, acho que não fiz. Bom, para já não sou eu que faço… ele é que aparece! E eu estou à espera que ele apareça (risos). Estou sempre à espera. Há sempre surpresas… Por exemplo, em 2017, eu achava que era um ano péssimo… E agora estou calado… para não errar outra vez! (risos). Eu achava mesmo que aquilo era péssimo: é tudo ao contrário do que toda a vida eu defendi, e de repente… parece estar a ficar bom!
O Futuro? O futuro não é muito diferente daquilo que eu, cada vez mais, acho que tenho hipóteses de fazer actualmente, que é a minha ambição desde sempre: Fazer vinhos de excelência, que me dêm muito prazer a mim… Eu acho que a Pellada tem todas as condições para entrar numa fase intimista, mais virada para nós… Isto pode ser entendido como arrogância, mas não é arrogância nenhuma!! Eu se estiver de alguma forma preocupado com o comércio, isso perturbar-me-à, em especial a minha acção. E o que me dá prazer a mim fazer, é algo que seja outstanding, que eu goste mesmo, que me faça sentir realizado completamente. E para isso, o que é preciso? É preciso algum plafond económico, para não estar preocupado com as vendas, e preocupar-me só com a parte da produção, e se calhar restringi-la.
Terminámos! Muito obrigado!
Ainda temos de ir aos pipos, antes do almoço!
W4p, 9 Junho 2018