Visita à Barbeito – À conversa com Ricardo Diogo Freitas

VISITA  À BARBEITO

Parte 2

                                                                     À conversa com Ricardo Diogo Freitas

 

1.(w4p) Conte-nos o porquê do Ricardo Diogo ter vindo para o leme da empresa. Foi o chamamento familiar? Não estava satisfeito com a profissão de professor? Foi a necessidade?…

(RD) – Foi o chamamento de Família. A minha mãe precisava de ajuda. Havia um projecto de recuperação da empresa, e ela pediu-me ajuda. E eu lá vim! Inicialmente era apenas para a parte administrativa, etc… Mas depois, eles chegaram à conclusão que eu tinha jeito para aquilo, e pronto!… E assim foi.

Então, gostava também de ser Historiador?

Ah! Eu tenho sempre o meu livrinho de História, e o meu romance histórico a toda a hora nas minhas leituras. Sempre!

2.(w4p) Acha que o Vinho Madeira já tem a posição que merece no panorama vínico nacional e internacional?

(RD) – Já tem! Nos últimos 20 anos foi feito um trabalho de grande recuperação da imagem do Vinho Madeira. Claro que a imagem não se recupera, se não houver simultaneamente uma melhoria na qualidade daquilo que fazemos. Actualmente, o Vinho Madeira tem o reconhecimento merecido.

3.(w4p) A Barbeito é mais uma empresa de vinhos de lote (ao contrário, p.e., da D’Oliveiras), embora também tenha (obviamente) Frasqueiras. É verdade isto? Porquê?

(RD) – É. É verdade. Porque o vinho de lote é que proporciona a criatividade. E a criatividade é das coisas mais importantes da nossa vida. Se temos algum jeito fazemos coisas boas. E o lote resulta de  misturas. Ou seja, da criatividade e do pensamento. Pensamos e fazemos… sempre com algum risco, claro.

4.(w4p) A Barbeito é de certa forma conotada com a casta Malvasia. Porquê?

(RD) – Acho que não! Acho que é mais conotada com a casta Tinta Negra. Porque desde 1995 eu comecei a arriscar e, contra a opinião generalizada, começámos a fazer umas coisas interessantes de Tinta Negra. Acho que neste momento estamos mais conotados com a Tinta Negra. Talvez os mais famosos possam ser os Malvasias, mas do ponto de vista de inovação, estamos mais conotados com a Tinta Negra.

5.(w4p) Quais as razões para a correlação que existe entre a casta e o tipo de vinho (seco/doce)? É a tradição? São as características das castas?…

(RD) – É a tradição! Nós, por acaso, tecnicamente falando, já fomos à procura de explicações científicas para isso, mas existe muito pouco escrito sobre Vinho Madeira! E a resposta a essas questões é praticamente inexistente. Tem mais a ver, acho eu, com a tradição.  O Sercial dá um bom vinho seco; mas o Verdelho também; e a Malvasia também.

6.(w4p) A Barbeito também está a apostar noutras castas “menos óbvias”: Tinta Negra, Bastardo… Porquê? É para continuar?

(RD) – É para continuar. Não hajam dúvidas em relação a isso. A aposta na Tinta Negra resulta um pouco das minhas memórias. Porque toda a gente dizia que a Tinta Negra não dava vinhos bons, e só isso já era uma boa razão para tentar. Depois, o meu avô servia Tinta Negra antigo, aos convidados e amigos. E isto é uma situação que eu tenho na minha memória (dos 7 ou 8 anos). Ora, se ele servia, é porque era bom! Ele era uma pessoa extremamente exigente, muito rigoroso, e não servia aquilo que não era bom aos amigos. E eu, um dia, pensei: vamos experimentar! E comecei o processo… O Bastardo, teve também a ver com o tentar contrariar uma tendência. Para já o Bastardo estava extinto. E, em 2004, com este viticultor, numa conversa, ele disse que conseguia arranjar, e plantou vinhas de Bastardo. E porquê Bastardo? As pessoas andavam todas focadas e louquinhas pelo Terrantez, e eu decidi ir para o Bastardo. Claro que tem sido uma aventura dura! Porque é um vinho mais difícil de fazer. É uma casta difícil.

7.(w4p) A Barbeito apareceu em força, e a par da Blandy`s, pratica os preços mais altos do Vinho Madeira. Existe mesmo este fosso de qualidade entre estas duas marcas e as outras???

(RD) – (risos) Eu acho é que os outros estão demasiado baratos. Depois também é preciso ver o seguinte: O Vinho Madeira tem o seu envelhecimento, nós utilizamos, e depois já não temos mais. Isso paga-se. E depois há outra coisa no meu caso: o trabalho é mesmo muito! E o trabalho tem de ser pago! Nós somos uma pequena empresa, mas somos 22 pessoas a trabalhar, e todos vestem a camisola. Eu até acho que o nosso preço, é muito mais para pagar bem às pessoas que trabalham comigo, do que a procura do lucro. É muito mais esta filosofia.

8.(w4p) De um modo geral, o perfil da Barbeito é mais fresco e com acidez vigorosa; o da Blandy’s é de maior untuosidade e mais caramelo. Concorda?

(RD) – Concordo. Os vinhos da Blandy’s são mais doces, e o facto de serem mais doces, não realça tanto a acidez. Eu quando era pequeno gostava de comer limões. Já fica explicado isto. (risos nossos) É verdade! A minha mãe ralhava comigo, porque eu comia-os com casca e tudo; cortava às rodelas e comia. E a acidez é o Vinho Madeira! Vinho Madeira sem acidez não é Vinho Madeira. E então, procurando a pureza do vinho, a acidez tem de lá estar. E acidez é sinónimo de elegância. De facto, o estilo Barbeito, antes de eu chegar, não tem nada a ver com aquilo que é agora.

(e nós fizémos aqui este parêntesis para reafirmar que é exactamente por isto, por nos identificarmos com este estilo, é que a Barbeito é nosso parceiro… e não a Blandy’s…)

Mas a Blandy’s tem grandes vinhos, um estilo próprio, e têm uma coisa que eu sinto que é uma identidade de séculos, ou de décadas…

9.(w4p) Pergunta numérica: Quantos litros produzem/ano? Distribuição das castas? Percentagem de exportação? Quais os principais mercados?

(RD) –  180 mil litros por ano em média.  A percentagem de exportação é cerca de 85%. Os principais mercados: Japão, EUA, Bélgica e Inglaterra. Portugal continental também começa a ser importante. Em relação às castas: a Tinta Negra é mais de 50%, pois os vinhos baixa gama são sempre à base de Tinta Negra. Mas, nos últimos 15-20 anos, o interessante é as castas brancas a ganharem terreno em relação à Tinta Negra. Pois há vinte anos atrás, era 80% tinta Negra… ou mais.

10.(w4p) O Futuro? Qual o caminho? O que quer fazer? Já fez o seu melhor vinho?

(RD) – Hahahaha… Fogo… Não sei  se já fiz o meu melhor vinho… Vamos lá ver: Eu nunca disse “Este é melhor vinho que já fiz!”. Posso dizer que: “Este é o vinho que mais gosto…”. Mas a gente nunca sabe. Amanhã posso acordar com uma ideia, e acabar por fazer um vinho que ainda goste mais… Quanto ao futuro, o futuro é andarmos aqui como andamos agora! Sempre atentos ao vinho, dar o melhor de nós e nunca deixar de arriscar! Se um gajo tem uma ideia que ache que pode ser boa, é experimentar! Se resultou óptimo. Algumas coisas não resultam. E há outras que foram feitas, e que neste momento, ainda não sabemos se vão resultar. É mesmo assim! A ideia é estar sempre com espírito inovador.

11.(w4p) E existe algum projecto “alternativo”? Falámos num branco de mesa…

(RD) – Este branco de mesa só existe como resultado de um acidente… Vamos lá ver: eu sempre fui contra aquilo que é os vinhos “DOC madeirense”. Existiam estas vinhas de Verdelho… São 4 parcelas, que têm entre 20-25 anos, e as vinhas iam ser abandonadas, porque os homens iam emigrar. E ficámos com as vinhas. E então, a grande crítica que eu faço aos vinhos madeirenses é precisamente que a viticultura não dá atenção apropriada àquilo que se está a produzir, nomeadamente para vinho branco. Porque na realidade, as uvas tanto dão pata Vinho Madeira como para vinho branco. E depois, o facto do Nuno (Duarte) ter vindo para cá teve muita influência nisto, e a gente começou ali a pôr as vinhas de 2-2,5Kg para 600 gramas… Foram ali 3 anos a investir… E, a partir do momento em que foi possível controlar as vinhas, já é possível fazer vinho branco de acordo com aquilo que nós conhecemos por esse mundo fora, ou seja, vinhos bons… É óbvio que, neste campo, ainda temos muito para andar. É uma aventura… Mas acaba por ser “uma brincadeira” no meio daquilo que é o nosso contexto. É uma brincadeira, mas temos muito investimento nisto…

12.(w4p) São quantas garrafas?

(RD) – Mais ou menos 3000 do corrente e 2000 do Reserva. Agora, vamos lá ver se ganhamos alguma coisa com isto. Reparem que no ano passado, tivémos 42 deslocações a esta vinha. Eu penso que um viticultor que tem as vinhas à porta de casa, não faz tantas deslocações à vinha…

Terminámos! Como viu, foi rápido! Muito obrigado!

Sim, foi rápido! Vamos ao almocinho…

W4P,  1 de Setembro 2018