Prova Relíquias: “Velhos São Os Trapos!”

by | Abr 8, 2018 | Reliquia, Vinho | 0 comments

No passado dia 17 de Março a Wine4People (W4P) juntou-se em casa do Manuel Brás (MB) para a nossa habitual prova mensal, desta vez, uma “Prova de Relíquias”. Para além do Manuel, estavam também o Paulo Fernando (PF), o Rui Brás (RB) e eu próprio, Gil Pinto (GP) – “armado” com o saca-rolhas de pinças, instrumento fundamental, garanto-vos, para sacar rolhas antigas.

Para além de toda a petiscaria que abundava na mesa, a gastronomia ficou a cargo da competente Sofia, esposa do Manuel.

A única regra que havia para os vinhos da prova é que teriam que ter mais de 15 anos, ou seja, de 2003 para trás. Dentro deste amplo critério, os vinhos podiam ser considerados uma “relíquia” por inúmeras razões. Por terem uma idade particularmente avançada (como o Viúva Gomes, os brancos ou o Madeira), por serem uma primeira edição (como o Chryseia, o Pan ou o “T”), por terem alguma particularidade importante no nosso panorama vínico (como o Fojo), por serem vinhos estrangeiros já com alguma idade, que não se conseguem beber todos os dias (como o Dofí), por serem provenientes de regiões absolutamente de “nicho” (como o Boullosa e novamente o Viúva Gomes) ou até por serem vinhos antigos com rótulo que nos era completamente desconhecido, mas que o produtor teve a coragem e confiança para enviar para a nossa prova (como o Visconde). Ou então até poderia ser por outra razão qualquer…

As provas mensais da W4P são geralmente cegas, para que obviamente a opinião não seja influenciada por rótulos, regiões, anos de colheita, etc… Contudo, por esta vez, decidimos manter a prova aberta. A principal razão foi pelo facto de o critério de escolha dos vinhos ser tão amplo (podia ser branco ou tinto, de mesa ou fortificado, ter 15 ou 55 anos e ser de qualquer região, de qualquer país), que nos iríamos provavelmente perder numa prova cega e, por outro lado, passar um pouco ao lado das histórias por trás de cada vinho, que são indispensáveis numa prova de “relíquias”.

Outra razão importante que nos fez manter a prova aberta foi o facto de assim podermos escolher a ordem pela qual degustaríamos os vinhos, parecendo-nos que para tirar o maior prazer possível dos néctares, esta teria que ser determinada previamente. E qual era a ordem correcta? Os brancos no princípio e fortificados no fim: em relação a isto não houve grandes dúvidas. A sequência dos tintos, após os brancos e antes dos fortificados, já não seria tão linear. Pareceu-nos bem a seguinte: Terras do Sado, Alentejo, Douro, Bairrada, Colares. A maior dificuldade era o Priorat. Por fim, uma rápida prova no início localizou-o, pelo seu perfil, entre o “T” de Terrugem e os Douros.

Eu considero-me um bom apreciador de vinhos velhos e penso que uma grande maioria dos bons vinhos em Portugal são bebidos demasiado cedo. Isto tem a ver, na minha opinião, com o facto de os vinhos serem lançados para o mercado muito jovens (que é uma decisão das casas, que não me compete a mim discutir ou criticar) e pelo facto de os consumidores não disporem de paciência, espaço ou até conhecimentos para guardar os vinhos.

Se muitas garrafas são abertas demasiado cedo, é curioso que o contrário também acontece: pessoas que guardam tudo o que é vinho, mesmo aquele que não nasceu para envelhecer. Quando, ao fim de alguns anos de estimada guarda, se abrem certas garrafas, apanham-se grandes desilusões. E isto também contribui para a ideia instalada em muitos consumidores de que “pelo seguro, é melhor bebê-los todos em jovens, antes que se estraguem…”.

Vamos então aos vinhos, que ainda agora começamos e a prosa já vai longa:

Conde de Santar

  • Região: Dão
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Branco
  • Castas: N/D
  • Ano: 1985
  • Produtor: Casa de Santar
  • Teor Alcoólico: 12%
  • Preço: N/D
  • Classificação: GP 16 / PF 16,5 / MB 17 / RB 17

Esta garrafa veio da garrafeira do avô do Paulo Fernando, que a guardou em boas condições até que o vinho finalmente entregou a alma ao criador para a nossa prova. E, para um vinho que não terá sido feito para envelhecer durante mais de 30 anos, estava em excelente forma! O nível estava bom e a rolha em boas condições. A cor era belíssima, palha dourado, brilhante. No nariz é delicado, com discreta casca de limão e notas de mel escondidas que vão ganhando preponderância à medida que o vinho aquece. Nota-se ainda um discreto anizado com cariz vegetal, bastante interessante. Na boca é seco, com boa acidez. Falta-lhe talvez um pouco de intensidade, mas o equilíbrio que apresenta torna-o elegante e sedutor. Pelo seu perfil ligeiro e delicado, e pela sua idade, aconselhar-se-ia a não servir demasiado frio (diria a 10-12ºC). Bom início!

  • 16.5 Valores

Porta de Cavaleiros Reserva Seleccionada

  • Região: Dão
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Branco
  • Castas: N/D
  • Ano: 1985
  • Produtor: Caves São João
  • Teor Alcoólico: 13%
  • Preço: N/D
  • Classificação: GP 17,5 / PF 17 / MB 16,5 / RB 17,5

A rolha parecia um pouco repassada, mas teria que ser pouco, uma vez que o nível estava impecável. Começou por afundar-se com o saca de pinças, mas foi possível recuperá-la e retirar com o saca-rolhas convencional, mas não sem antes se ter desfeito parcialmente. O aroma inicial era desagradável, o que aumentou um pouco as preocupações: decantador com ele! No copo é também um palha dourado, mas mais fechado que o anterior, com uns toques de topázio. Respirou enquanto provávamos o Santar e, quando regressou à mesa, já vinha bem mais amigável. Mesmo assim, mantinha uns aromas desagradáveis de palha fermentada e maçã cozida. Com o tempo no copo, contudo, estes foram-se esfumando e o vinho terminou a prova em grande! O foco no nariz é em fruta cítrica, com casca de limão, com toques minerais de caixa de fósforo e pederneira no nariz que lhe conferem muito interesse. O perfil cítrico mantém-se na boca, muito fresco, acidez bem viva, crocante, e com boa intensidade. O final é muito longo! Tal como com o anterior, a temperatura demasiado baixa esconderá as nuances mais delicadas, que lhe conferem alguma complexidade. Como referência nesta prova, fica seguramente a importância da decantação para dar tempo ao vinho para que respire sempre que apresente aromas mais desagradáveis (que não oxidação, claro: essa não desaparece com a respiração), seja ele tinto ou branco. Conheço muitas mesas de “peritos” em que este vinho teria sido declarado morto e ido directamente pia abaixo sem lhe ter sido dada a oportunidade de se revelar. O que teriam perdido…

  • 17 Valores

Visconde de Alcácer

  • Região: Terras do Sado
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira
  • Ano: 2003
  • Produtor: Herdade da Barrosinha
  • Teor Alcoólico: N/D
  • Preço: N/D
  • Classificação: GP 17 / PF 17 / MB 16,5 / RB 16,5

Este rótulo era completamente desconhecido de todos nós, portanto as expectativas não eram altas, nem baixas: não tínhamos. A única coisa que me fez estar mais esperançoso foi o facto de a garrafa ter sido gentilmente cedida pelo produtor especificamente para esta prova. Ele saberia o que estava a enviar… E, de facto, constituiu uma bela surpresa, este vinho. Cor granada não muito profunda. No nariz não esconde um toque de Brett, mas num nível que não me deixou ofendido, e que também não é suficiente para esconder as notas de fruta vermelha e ameixa maduras. Na boca é seco, com taninos verdes, não em grande quantidade. Tem um toque vegetal e especiado, onde ganha preponderância a pimenta preta. Tem também um cariz mineral, que faz suspeitar que as vinhas estejam em proximidade do mar e/ou plantadas em solos arenosos. Muito bem!

  • 17 Valores

“T” – Quinta da Terrugem 1999

  • Região: Alentejo
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Aragonês, Trincadeira
  • Ano: 1999
  • Produtor: Quinta da Terrugem
  • Teor Alcoólico: 14%
  • Preço: N/D
  • Classificação: GP 18 / PF 18 / MB 18 / RB 18

Em 1999, Michel Rolland e Francisco Antunes fizeram 14.531 garrafas deste vinho, na primeira edição, criado para se tornar num ícone do Alentejo. Michel Rolland já estava familiarizado com a região, nomeadamente através da sua famosa parceria com a Fundação Eugénio de Almeida para a elaboração de outro vinho icónico Alentejano, o Pêra-Manca. Como qualquer ícone, era um vinho caro, na altura. A 50€ já era bem comprado. Hoje, é difícil de encontrar e as referências disponíveis (30-40€ por garrafa em estimativa de leilão, por exemplo) estão desactualizadas. Quanto a mim, comprei-o por uma bagatela numa oportunidade única e, por decoro, não vou dizer exactamente o preço que paguei por umas quantas dezenas de garrafas…. O nível estava pela base do pescoço, mas a rolha ainda estava competente, embora por pouco. A cor estava já um pouco aberta, apresentando-se granada com uns laivos de tijolo. O nariz é muito interessante e complexo, com fruta vermelha de fundo, mas com café e especiarias (canela) a dar complexidade. Talvez um toque de acidez volátil? Na boca, há notas de fruta vermelha e ameixa preta, bem enquadradas por nuances vegetais (chá preto) provavelmente provenientes dos 10% de Trincadeira que constitui o lote. Os taninos estão ainda bem vivos e persistem num final longo e picante. Isto é o Alentejo clássico em todo o seu esplendor! Apesar de ter ainda uns anos de vida pela frente, penso que se encontra agora numa óptima fase de consumo e que já não vai ganhar muito mais com a guarda. Apesar de ter “apenas” 14% de teor alcoólico, este faz-se notar um pouco na boca, pelo que deve ter-se em atenção a temperatura (diria que não deve passar muito para cima dos 18ºC). Foi, consensualmente, um dos melhores vinhos em prova.

  • 18 Valores

Finca Dofí 1998

  • Região: Priorat
  • Pais: Espanha
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Grenache, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah
  • Ano: 1998
  • Produtor: Alvaro Palacios
  • Teor Alcoólico: 13.7%
  • Preço: 75€
  • Classificação: GP 18 / PF 17,5 / MB 17,5 / RB 17

Alvaro Palacios é um dos principais produtores do Priorat, na Catalunha, e de Espanha em geral. O seu vinho mais conceituado, o L’Ermita, é reconhecido por todo o Mundo e atinge preços estratosféricos. Este Finca Dofí é o segundo da hierarquia e é também um vinho de pergaminhos firmados. Tinha esta garrafa em guarda (foi-me oferecida há uns tempos por um grande amigo espanhol, extraordinário apreciador de vinhos: o Nacho, de Valencia) e, não sendo todos os dias que se consegue provar um Dofí com 20 anos, por que não levá-la para a nossa prova de relíquias e internacionalizar o evento? Dito e feito. Rolha parafinada, impecável. De cor, apresenta um granada carregado e escuro, brilhante e espesso no copo. No nariz é muito austero, com mofo inicialmente. Se primeiro se estranha, rapidamente se entranha, e o mofo dá lugar a madeira velha, bosque, cogumelos. Também um toque de especiarias (canela, novamente). Na boca é seco, intenso mas equilibrado, elegante, com taninos bem polidos mas ainda em quantidade. Parece ter ainda uns bons anos pela frente: se tivesse mais garrafas não iria a correr abrir as outras. Menos consensual, os restantes comensais não apreciaram este vinho tanto como eu.

  • 17.5 Valores

Fojo 2000

  • Região: Douro
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: N/D
  • Ano: 2000
  • Produtor: Quinta do Fojo
  • Teor Alcoólico: 14%
  • Preço: 75€
  • Classificação: GP 17,5 / PF 17,5 / MB 17,5 / RB 17

Este Fojo foi recentemente (2014) relançado para o mercado, numa quantidade muito pequena (apenas 600 garrafas) e tornou-se famoso por ter sido o primeiro vinho tranquilo português a conseguir obter a pontuação de 97 pontos atribuída por Mark Squires (eRobertParker.com). Não sei se mais algum vinho português conseguiu semelhante distinção posteriormente, porque não sou seguidor assíduo de avaliações por críticos estrangeiros de vinhos portugueses. Nada a dizer da rolha. Apresenta uma cor granada, bastante ligeira para um vinho feito de vinha velha do Douro, mesmo que já com 18 anos de idade. Se a cor surpreende, já no nariz este vinho é “Douro in your face”! Com as notas da Tinta Barroca a dominar (fruta vermelha na forma de cereja, framboesa, groselha e alguns anisados, alcaçuz, a fazer lembrar o nariz de alguns Porto Vintage ou LBV’s), apresenta também perfil vegetal (esteva). Na boca, apresenta-se com o foco novamente na fruta vermelha madura, com final longo e guloso, mineral e elegante. Os taninos estão ainda bem verdes, de tal forma que o vinho parece ainda jovem! Apesar de não seguir as opiniões de críticos estrangeiros, como já referi, fui ler a de Mark Squires, que obviamente aconselho (pode ser lida em www.quintadofojo.pt), e onde é referido que o vinho pode beber-se até 2030. Eu diria que (*ahem!*) se o vinho venceu desta forma estrondosa (sim, acho que ainda não está no ponto para se beber!) os primeiros 18 anos – os mais difíceis – então a janela de consumo não se encerrará seguramente nos próximos 12, e terá muitos mais anos (décadas?) pela frente! Fiquei muito agradado com ele na primeira impressão. Contudo, quando lá voltei numa rápida segunda volta pelos vinhos para umas anotações finais, ao contrário dos outros, este tinha baixado os braços e tinha perdido alguma da vivacidade e frescura, bem como aquele perfil directo de Douro.

  • 17.5 Valores

Chryseia 2000

  • Região: Douro
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão
  • Ano: 2000
  • Produtor: Prats & Symington
  • Teor Alcoólico: 13.5%
  • Preço: 100€
  • Classificação: GP 17,5 / PF 18 / MB 18 / RB 17,5

Por falar em relíquias: a primeira edição do ícone duriense Chryseia, alguém quer? Nas minhas pesquisas aprendi que “chryseia” significa “d’ouro” em Grego, numa alusão ao vale donde provém. Rolha impecável. Tal como o antecessor, não apresenta uma cor muito profunda, embora este esteja um pouco mais pintado. Neste segundo vinho do Douro o foco muda para fruta de bosque, como framboesa e mirtilo. No nariz é um pouco desconcertante, com notas de alcatrão juntamente com a fruta. Mas o que chama mais a atenção é o seu perfil verde, com taninos verdes e agressivos, a dar ideia que ainda não chegou ao ponto ideal de consumo. Parece que o vinho ainda não se libertou da estrutura hercúlea que o encerra. Nota-se que na realização desta primeira edição não foram feitas quaisquer concessões, é um vinho brutal! Tal é a força dos taninos, que o Rui adiantou que parece ser um vinho de vindima precoce e vinificado com engaço, com o que concordei inteira e imediatamente. Mas fui estudar e até nem foi o caso: a vindima iniciou-se a 13 de Setembro e terminou a 5 de Outubro! Na ficha técnica também não há menção a engaços, apenas a “maceração por remontagem e temperatura controlada (28 a 30ºC)”. Parece que nos enganamos, Rui, nem parece coisa nossa… heheh. Fora de brincadeiras, este é um vinho com muitos anos de vida pela frente, que na minha opinião ainda beneficiará de mais um bons anos em garrafa. Quando estará pronto? Nem faço ideia…

  • 18 Valores

Vinha Pan 1995

  • Região: Bairrada
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Baga
  • Ano: 1995
  • Produtor: Luís Pato
  • Teor Alcoólico: 13.5%
  • Preço: N/D
  • Classificação: GP 18 / PF 17,5 / MB 18 / RB 16,5

Trazido pelo Paulo, que o conseguiu encontrar num Reliquário (leia-se “Garrafeira”) no Bairro Alto, em Lisboa, é também uma primeira edição de um vinho icónico de um produtor incontornável da região da Bairrada. Esta era uma das 6800 garrafas lançadas para o mercado há 23 anos. Não sei se 1995 foi um ano particularmente bom na Bairrada, mas tenho gratas memórias de um Bágeiras do mesmo ano que bebi já há uns bons anos e do qual gostei muito, de tal maneira que foi um dos vinhos que contribuiu de forma indelével para o meu interesse em vinhos com idade. Sem problemas com a rolha. A cor apresenta os normais sinais de evolução para um vinho com mais de 20 anos, nada que já não se esperasse. Este vinho é BAGA no seu estado mais nobre e puro! Captam a atenção as notas de cedro (vai ganhando protagonismo com o tempo), pinho, bosque, terra molhada, cogumelos. Ainda muito bem estruturado, com taninos bem fortes, vai durar ainda pelo menos uns bons 10 anos. Para mim, foi uma experiência extraordinária poder provar este Baga encantador! Foi, provavelmente, o meu tinto preferido.

  • 17.5 Valores

Viúva Gomes 1965

  • Região: Colares
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Tinto
  • Castas: Ramisco
  • Ano: 1965
  • Produtor: Adega Viúva Gomes
  • Teor Alcoólico: 11%
  • Preço: 85€
  • Classificação: GP 17 / PF 18,5 / MB 18 / RB 16

Chegou, por fim, a vez do senhor de mais respeitosa idade da nossa prova. Mais velho do que qualquer um dos comensais à mesa (o que já não é dizer pouco) ou de que qualquer outro dos vinhos presentes. E não, não era um fortificado: era um Ramisco de Colares! Que nos foi gentilmente cedido por José Baeta numa recente visita à Adega. Como qualquer vinho com carácter extraordinariamente vincado, este não foi consensual. Para alguns, esteve ao nível dos melhores; para outros, foi dos que menos agradou. Óptimo, mostra carácter! Não foi dos que apreciei particularmente, apesar do esmagador respeito que 53 anos de vida num vinho de mesa impõe a um mero mortal que não sabe se um dia chegará a atingir sequer essa idade… Sem problemas com a rolha. A cor é surpreendentemente profunda para um Ramisco tão velho. A acidez volátil pungente é, na minha opinião, o principal desequilíbrio do vinho, está no limite. De resto, trata-se de uma experiência fantástica: a salinidade é absolutamente incrível e única; a acompanhar existem notas balsâmicas (resina de pinho) e de madeiras exóticas. Os taninos são suaves (finalmente, ao fim de mais de 50 anos!) e acompanham o palato no seu longo final. Um vinho que está longe de deixar alguém indiferente e, por isso, está longe, muito longe, de estar morto.

  • 17.5 Valores

Carcavelos Casa Manoel Boullosa 1991

  • Região: Lisboa
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Fortificado
  • Castas: N/D
  • Ano: 1991
  • Produtor: Quinta dos Pesos
  • Teor Alcoólico: 20%
  • Preço: 19€
  • Classificação: GP 17,5 / PF 18 / MB 18 / RB 17,5

Numa prova de relíquias não poderia faltar um Carcavelos, seguramente a DOC mais pequena de Portugal e uma das mais pequenas do Mundo! Parente – pobre não!, antes desconhecido – da família dos fortificados nacionais, tem vivido à sombra de monstros (também eles extraordinários) como os Portos, os Madeiras e os Moscatéis. O vinho de Carcavelos foi apadrinhado pelo Marquês de Pombal, um dos principais produtores à data; contudo, só em 1908 foi a região demarcada. Chegou a ser exportado para todo o Mundo, a sua fama exacerbada pela escassez de Vinho do Porto durante as invasões francesas da Península Ibérica, mas várias catástrofes consecutivas quase conseguiram apagar definitivamente o vinho de Carcavelos da face da terra. Apenas umas quantas (poucas) vinhas sobreviveram primeiro ao oídio, depois à filoxera e, finalmente, à terrível especulação imobiliária que se estabeleceu sobre os terrenos dos municípios de Oeiras e Cascais. Existem castas recomendadas, com uma participação mínima recomendada de 75% do lote final e castas autorizadas, com uma participação máxima autorizada de 25%. Destas, a estrela é o Moscatel Dourado, que praticamente só é plantado aqui. Mas divago demasiado: vamos ao vinho. Na cor, apresenta-se com um belo âmbar. No nariz impressiona a fruta tropical surpreendentemente fresca, com notas terciárias de resinas fazendo parecer, para referência, alguns Madeiras. Na boca é muito intenso, com grande doçura (apontamentos de mel no final), que é muito bem equilibrada pela excelente acidez. É também muito complexo, com especiarias como canela e cardamomo a fazerem-se notar. Outra característica que muito apreciei foi as notas minerais de pólvora e iodo, revelando a influência do Atlântico, logo ali ao lado. Acompanhou lindamente a sobremesa de Sericá da Pastelaria Pão de Rala, Évora, uma das melhores do Alentejo (desta vez sem a famosa ameixa de Elvas em geleia, que provavelmente iria chocar com o vinho). Este Carcavelos é raro, não requer condições particularmente difíceis de guarda e tem uma relação qualidade/preço muito difícil de bater em termos de fortificados. Pelo facto, aconselho vivamente a sua compra. Eu já me abasteci!

  • 18 Valores

Cossart Gordon Sercial 1971

  • Região: Madeira
  • Pais: Portugal
  • Tipo: Fortificado
  • Castas: Sercial
  • Ano: 1971
  • Produtor: Madeira Wine Company
  • Teor Alcoólico: 19%
  • Preço: 170€
  • Classificação: GP 18,5 / PF 18,5 / MB 18,5 / RB 18

Para o fim ficou aquele que foi, consensualmente, o melhor vinho da prova. A garrafa, trazida pelo Paulo, não estava no programa e foi a única que veio tapada para a mesa. Estando já nós nos fortificados, e sendo um vinho trazido pelo Paulo, eram fortes as possibilidades de se tratar de um Madeira. E assim que se retirou a rolha (operação difícil, mesmo com as pinças), bastou encostar o nariz ao gargalo para ficar mais convencido de que era um nobre exemplar do melhor vinho do Mundo. Só podia ser, e era! Tentamos adivinhar a casta, e ainda fomos ao Terrantez pelo seu perfil tropical e seco, mas não suspeitámos que se tratasse de um Sercial. Nem nos atrevemos a tentar identificar o ano da colheita, mas até não seria impossível de adivinhar, uma vez que 1971 é o ano de nascimento do Paulo. No copo apresentou-se de cor âmbar turvo, com um fundo de topázio. No seu perfil tropical tem notas de fruto delicioso, autóctone da ilha da Madeira que identifico graças à minha ascendência madeirense e que me traz gratas memórias da minha infância. Faltando referência para o que é o fruto delicioso (que aconselho a experimentar uma vez que se desloquem à Madeira), pode substituir-se por notas de papaia, que o Paulo muito bem identificou. Na boca, apresenta-se extraordinariamente tenso, com grande intensidade e estrutura impressionante. Para além da fruta tropical, no longo final predominam os frutos secos, num enquadramento mineral de iodo e caixa de fósforo, muito bem enquadrados pela incrível acidez. Que grande final!

  • 18.5 Valores

CONCLUSÕES:
A minha primeira conclusão é que é um privilégio para mim poder ser o porta-voz para a W4P desta fantástica reunião! Foi uma prova extraordinária na qual não tivemos que ser submetidos a percalços que acontecem frequentemente neste contexto, em que uma ou mais garrafas não estivessem em condições: todos os vinhos estavam num patamar brilhante! A conclusão seguinte é que temos um país absolutamente inigualável no panorama vínico, quer do ponto de vista da variabilidade (dos “mainstream” Douro, Dão e Alentejo aos encantadores vinhos de “nicho” como Colares, Carcavelos ou Madeira), quer do ponto de vista da longevidade (aqui, os Madeira são imbatíveis e a capacidade de envelhecimento dos Colares é impressionante!). Uma terceira conclusão é que esta não foi uma prova de “vinhos velhos”: antes uma prova de “vinhos com idade”. Porque “velhos são os trapos”!… Na realidade, alguns deles, particularmente os Douros, apresentaram-se jovens demais, apesar da sua respeitável idade. Incrível!…

E quais foram, afinal, os vencedores? Há muitas respostas. O vencedor de todos os vencedores foi, por consenso, o Madeira – uma relíquia extraordinária! Nos brancos, o Cavaleiros foi o preferido, apesar de o Santar se ter apresentado em boa forma. Em relação aos tintos a decisão foi mais difícil, mas a discussão é também mais interessante. Vejamos: se olharmos ao vinho tinto preferido de cada um dos provadores, o Vinha Pan foi o que recolheu mais preferências pessoais (para mim e para o Manuel); contudo, se tivermos em consideração a classificação final média, o “T” da Quinta de Terrugem foi o melhor (todos atribuímos 18 valores); por fim, o vinho que singularmente arrebatou a nota mais alta entre todas as notas, foi o Colares, em que o Paulo, seduzido pelos seus encantos, atribuiu uns respeitáveis 18,5 valores!

Só numa extraordinária prova de *verdadeiras relíquias* os nossos sentidos poderiam ser desafiados desta forma! Bravo!

G.P.
Wine4people, 24 Março 2018

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